Licélula & o erro da comparação

Era uma vez uma célula. Bem pequenina. Minúscula. Como todas as outras células do corpo.  Licélula, esse era seu nome, havia nascido no Baço – um país setentrional bastante importante, mas muito discreto, do corpo humano.  Como toda boa baciense, Licélula era extremamente sensível aos humores subjacentes do seu universo –  o corpo humano. E também tinha uma certa tendência a pensar demais e criar preocupações.

Tudo ia muito lindamente bem, até o dia em que Licélula decidiu que não queria mais habitar o Baço. Porque ela não via mais graça em sua vida – sua mente lhe dizia e fazia crer que as células do Fígado, do Pulmão, do Coração e até do Intestino Grosso eram muito mais importantes e valiosas para o corpo do que ela.

Logo ela começou a acreditar que seu gramado era o menos verde de todos. Definitivamente, ela não aceitava mais sua condição de Baciense. Em seu interior, um mix de emoções se alternava – raiva, desapontamento, frustração, rebeldia, culpa, sofrimento… E isso criavam uma série de filmes com histórias nada legais em sua cabeça. Ou melhor, nada saudáveis. Licélula foi ficando inchada, anabolizada, esverdeada, com manchas estranhas e uma dificuldade extrema em executar suas atividades mais essenciais.

Ao se deparar com mudanças em sua estrutura, cor, forma e funcionamento, logo percebeu que estava à beira de um colapso –  o que só aumentou seu desespero… E ela vibrou em cada molécula o desejo de apenas voltar à sua essência.

Como toda intenção honesta ao propósito que nos anima é atendida, Licélula acabou recebendo ajuda do universo. Uma linda e robusta célula sanguínea que passava pelo Baço acabou sensibilizada diante da situação da colega em quase colapso. E resolveu ajudá-la da única forma que sabia: mostrando a força e o poder de Ser o que somos, somente – e como viver esse propósito é o que coloca alegria em nossos dias e núcleos, pela vida que levamos.

Uau. As palavras da célula sanguínea tocaram o núcleo de Licélula.

Sim! Cada célula tem seu propósito na existência no corpo. E a sua, como baciense, era tão vital ao todo quanto qualquer outra. Licélula pensou no papel seu e de suas compatriotas de Baço: purificar o sangue, garantir o perfeito funcionamento do sistema imune e estabelecer o ritmo da vida diária através do ciclo circadiano. E, conceitualmente, garantir a vitalidade do organismo.  Sua ausência ou má funcionamento seria sentida no todo, portanto.

Contemplar isso lhe fez despertar do transe maluco em que andava.  E também abandonar a resistência àquilo que é.  Assim, Licélula não só aceitou seu papel no universo do corpo, mas também tudo que acontecera até então. Sem gastar nenhuma partícula de tão necessária energia lamentando o caminho errado que havia pego, se entregou ao propósito e agradeceu tudo que lhe acontecera –  o que,  no final da contas,  lhe tornara consciente quanto ao seu propósito de ser e existir.

Além de recuperar sua vitalidade e funcionamento, Licélula também  conquistou algo que há muito desconhecia: a paz interior.  E nunca mais esqueceu dessa preciosa lição da vida. A comparação é uma péssima e nada saudável atitude, que nos mantém prisioneira de uma história que só roda em nossas mentes.  E para dela se libertar é preciso aceitar o que-e-quem somos e também aquilo que é. Esse é o caminho para a paz interior, a harmonia do corpo e o amor. O que Licélula agora compreende.

PS:  este despretensioso conto é resultado de uma brincadeira deliciosa que fiz, ao unir ensinamentos milenares  Antiguidade e os conceitos do BodyTalk para contar uma história.