Marketing e relacionamentos, uma teoria

– Você já se deu conta de que criamos um verdadeiro plano marketing quando nos apaixonamos e  queremos alguém, Fer? Que as regras do mercado valem para os relacionamentos, também?  – questiona Souza.

– Oi? Como assim?  – pergunta Maria Fernanda, surpresa com o assunto que o cabeleireiro traz à tona.

– Sério! Olha só… Quando uma empresa prepara o lançamento de um produto no mercado, ela geralmente faz um grande estardalhaço. Certo? Cria todo um ambiente propício para que o consumidor caia de amores e anseie imediatamente o  produto.  Vai dizer que não fazemos exatamente a mesma coisa com nossos prospects? – instiga Souza.

– Aham! Olha a Babi, por exemplo – responde Maria Fernanda, animada com o tom da prosa – Escolhe as roupas, as músicas, os lugares, as palavras, os encontros, enfim… Dedica tempo e neurônios para criar um clima perfeito a cada novo passo. São hoooooras arquitetando  estratégias a cada novo prospect em potencial.

– Mas o mais difícil é o como se manter no topo do mercado. Você não acha, Fer?  – provoca Souza –  Sobre o quanto é imprescindível alimentar o desejo do não-mais-prospect-e-agora-cliente e como é preciso surpreendê-lo constantemente.

– Sim, quem esquece essa premissa cai em declínio, mesmo – concorda Maria Fernanda, lembrando de seu próprio casamento.

– E ao percebermos que flancos foram abertos – continua um cada vez mais inspirado Souza, já interpretando a cena no meio do salão –  e estamos em queda na liderança isolada, partimos para uma tentativa desesperada de reconquistar o topo.  Mas aí, amiga, é necessário muito mais do que criatividade! São doses hercúleas de energia, empenho e investimentos  na tentativa de resgatar o poder de surpreender e, assim, de novo conquistar o coração desejado. Porém, muitas vezes, nem todo o empenho traz algum resultado efetivo.  A essas alturas, o desinteresse se faz presente, muitas vezes junto com a culpa e o pesar, dificultando ainda mais a tentativa de ocupar novamente o tão almejado topo.

– Nossa Souza, de onde você tirou todo esse papo empreendedor? –  pergunta segurando o riso uma curiosa Fer, impressionada com o inusitado tom mercadológico na prosa do amigo cabeleireiro.

– É que estou tendo aulas de Marketing naquele curso de Administração para Salão e não paro de pensar nisso – justifica Souza, com os olhos brilhando em pura criatividade. O celular dele toca,  interrompendo a prosa e mudando o foco de sua atenção.

Maria Fernanda pondera sobre as palavras do amigo. Sim, elas têm fundamento. Demanda muito mais esforço, comprometimento, empenho e criatividade recuperar um produto ou marca, do que simplesmente apresentar uma nova alternativa no mercado do amor.

 

TEMPOS VERBAIS
O texto aí foi  escrito em 2012,  quando a história de  Babi, Souza e Maria Fernanda ainda se desenrolava no meu antigo site com participação da prima psicóloga Ana Rizzon,  se tornando embrião do livro Tempos Verbais,  meu primeiro romance.  Babi, a protagonista, é uma fotógrafa de 40 anos que, diante de um pretérito nada perfeito e de um presente de desencontros, dores e desilusões, se lança em uma linda  jornada de transformação. Conforme vai compreendendo as origens de suas queixas na psicoterapia com Ana, Babi passa a compor sua história em um novo tempo.