Ego & pensamento, Mercúrio

Nosso próximo encontro é com Mercúrio, o planeta que representa a matéria sutil que preenche o espaço entre a terra e o céu. Que matéria? O ar, o vento, o pensamento.

O ar é o símbolo da conexão entre as forças divinas criadoras de vida no cosmos e nós, criaturas da natureza que coabitamos o mundo. Para compreender esse conceito, pense na respiração, a forma mais básica de comunicação entre o divino e nós, segundo a sabedoria da Antiguidade.

Através dela, inspiramos a força vital, o prana para os hindus, e a levamos e distribuímos às nossas entranhas. A cada ciclo de inspiração-expiração, nos conectamos ao mistério, à vida. O ritmo que estabelecemos para este ciclo determina como organizamos e levamos a energia vital, a informação do céu, para cada célula do corpo. Tal qual fazia Mercúrio, o mensageiro dos deuses para os homens, o leva-e-traz  entre Olimpo e Terra.

A propósito, você sabia que o ciclo respiratório está intimamente relacionado com o processo cerebral de escanear o corpo a fim de detectar qualquer mau funcionamento? Aham. E estudos apontam que pessoas com inspiração restrita tendem a perder vitalidade, a se arrastarem, e à depressão.  Já quem não expira completamente, por sua vez, tende a uma personalidade defensiva, à tensão física e emocional, e à hiperatividade.

No mundo interior, todos esses estados são sintomas de desconexão com a natureza interior, que gera grande resistência e falta de entrega à vontade divina.  Sem a conexão com a verdade nossa, não só perdemos a consciência do nosso propósito por aqui, mas também  ficamos à mercê dos outros.  E nos tornamos massa de manobra –  não apenas de terceiros, mas de um grande e traiçoeiro trapaceiro que habita todos nós e assume o comando no lugar da sabedoria do coração: o ego.

É ele o lado esquerdo do cérebro. A mente ruminante toda cheia de opinião, julgamentos e scripts baseados em dogmas e crenças que quase nunca são nossos, mas que esse trapaceiro aí nos leva a crer que são.  Um excelente servo de sua majestade, a verdade do coração, mas que ao assumir o controle e nos guiar, esquece toda a sua leveza e se torna um ditador inflexível dos mais tirânicos.

Quando permitimos que a mente opinosa assuma o comando, os problemas surgem. Sem a luz da sabedoria e consciência do coração, da nossa verdade, como guia, a mente se torna esta grande e déspota trapaceira e começa a nos pregar peças, criando muita confusão com pensamentos equivocados, baseados em coisas como comparações, dogmas e opiniões externas, palavras inapropriadas e tudo que não dialoga com a nossa autenticidade. Assim, as dúvidas, inseguranças, erros de direção e caminho, as cobranças, e a culpa começam a nos assombrar.

Ok, você deve estar pensando. Tudo muito lindo no papel. Mas na prática, como tornar o ego um servo e aliado e não um déspota e tirano governante?

Bem, a essa altura acredito que você até já imagine a resposta, mas ainda não diga em alto e bom som:  sim, sim, sim, através de tudo que conecte o céu e a terra, como a respiração. Porque é assim, no silêncio e no compasso do ritmo nosso, que nos conectamos à verdade, à sabedoria divina que habita o coração. À nós mesmos.

Então, a partir dessa consciência da natureza que somos, surge a compreensão do nosso propósito – cuja expressão e manifestação cabe ao ego, à Mercúrio. Pense nas árvores, por exemplo. Se não existisse a laranjeira, com suas lidas e perfumadas flores e sua suculenta fruta plena  de vitamina C. Sentiríamos falta dela, não é?  E a roseira, então, com suas lindas e belas flores, que tanto seduzem, apaixonam, alegram e inebriam nossos sentidos e inspiram poesia. O mundo até existiria sem elas, mas não seria o mesmo, não é?

Esta é a energia simbolizada por Mercúrio. Expressar e manifestar a vontade divina da nossa existência aqui, o que também chamamos de propósito, conectando a inspiração dos céus aos nossos recursos internos, ao que dispomos em nossa natureza terrena. Porque cada um de nós tem um propósito, sim. E a não manifestação dele afeta e é sentida não apenas por nós, mas por todo o universo.

Assim, Mercúrio simboliza a mente orientada pela sabedoria e conhecimento da nossa verdade, utilizando os recursos que dispomos com um só objetivo: a manifestação da vontade, a mais espontânea e autêntica expressão da nossa verdade, do que se é, do nosso propósito. A rosa da roseira, a laranja da laranjeira. Uma energia que vivenciamos plenamente quando usamos a mente como canal de expressão da vontade divina, e não como central de produção de julgamentos, opiniões, e falsas histórias (ilusões) sobre nós mesmos.

Como se faz isso?

Se entregado à vontade divina. Ou seja, reconhecendo e aceitando a natureza nossa, pra começar.  Feito isso, usar a massa pensante para expressar o que nos cabe e assim cumprir nosso papel na existência. Sem resistências, objeções, poréns ou mas.  Apenas existindo e sendo, como fazem as rosas, os jasmins, as laranjas, as maçãs, as árvores, os animais e todas as demais espécies da natureza. Inspirando e se conectando à vontade divina, à nossa natureza, e expirando sua manifestação e expressão.  Simples assim, como a nossa respiração.