Desesperada para casar # 13

– Então é aqui que aquele safado esconde as piranhas dele – disse a morena, raivosa.

– Opa lá!  Olha o respeito!  – rebateu Luciana, como se tivesse acordado, de repente, com a ofensa.

– Hummm…. – sussurou ela, antes de metralhar os sonhos da pobre secretária. – Por acaso, o Wanderley contou que AINDA é casado? Que até hoje não saiu o divórcio? Ele disse que faz sete meses que não paga a pensão do filho dele? Aliás, ele nem visita o filho esse tempo todo! Ele contou que aquela F 1000 velha é de uma outra ex-mulher? Será que o Ley falou que o barco que ele usa todo final de semana no Araguaia ele roubou de um ex-sogro? E ele disse que o emprego é na loja de uma tia minha? E contou que a mãe dele já é morta há muito tempo?

Luciana caiu sentada da cama. Era demais. Ela não conseguia acreditar no que escutava! Só mentiras. E quantas mentiras. Que roubada!

– Você não é a primeira tansa que cai no papo dele e vem pra cá e banca uma semana, um mês, um ano da vida dele! Comigo também aconteceu a mesma coisa! Só que eu amo esse ordinário!  E tô disposta a brigar por ele!

Não! Tudo aquilo era demais para a pacata e insegura Luciana. Sem conseguir controlar-se, ela soltou um grito que estremeceu as paredes finas do hotelzinho. E, então, caiu desacordada.

A ex-mulher do caubói, sem esperar tal reação, deu um giro de capa e bateu em retirada, cruzando no corredor com um assustado recepcionista, que se dirigia ao quarto de Luciana. Afinal, ela já havia alcançado seu objetivo: acabar com mais um romance do fajuto do ex-marido.

Quando voltou a si, Lu estava deitada na cama. Ao seu lado, estava um pálido e assustado recepcionista.

– Ainda bem! Graças a Deus, a senhora não tá morta! – disse, com claro alívio, o rapazote.

Luciana percebeu que já era dia claro. Ficara a noite inteira desacordada. Recordou, então, da ex-mulher de Wanderley e de tudo o que ela contara e das cenas de horror que havia protagonizado na noite anterior. Tais lembranças recuperaram-lhe as forças. Pulou da cama, enxotou o rapaz do quarto e começou a jogar todos os seus pertences dentro da mala. Tomou uma ducha rápida, trocou de roupa e, meia hora depois, estava dentro de um táxi, a caminho do aeroporto, de onde partiu no início da tarde.

“Nunca mais vou permitir me enganar assim!”, jurou naquele momento, prometendo a si mesma que, dali pra diante, faria terapia, reiki, meditação, o que fosse, mas mudaria a sua forma de se relacionar com os homens e com a vida.

Quanto ao Caubói, bem.. O que se sabe é que ele ainda trabalha na mesma loja, dirige a mesma F 1000, continua sem pagar a pensão do filho e andando no barco do ex-sogro. Ainda explora mulheres inseguras e mal-amadas de todo o país que sonham com o casamento, contando histórias que deixariam até a carochinha enciumada. A única diferença é a cicatriz em seu rosto, ornamento que ganhou ao levar uma tremenda sova de uns marmanjos musculosos, que o deixou sete dias de molho, imobilizado no hospital. Trabalho este encomendado por uma pacata, romântica e vingativa secretária.

Volte para o começo da história.

PS:  ‘Luciana, desesperada para casar’  é uma das primeira histórias que escrevi,  inspirada nas protagonistas desastradas dos livros que me divertiam no raiar de 2004. Um tempo em que as protagonistas não contavam com a ajuda de facebook, instagram, tinder, what´s app ou do falecido orkut.