Confiança, a coragem de acreditar

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Foi em uma sexta-feira, às vésperas do equinócio da Primavera, que Mariana recebeu uma ligação de sua irmã  Manuela confirmando a suspeita diante da falta de memória de sua mãe, Dona Greice. O diagnóstico do neurologista fora taxativo: Alzheimer.

Naquele final de semana, a natureza chorou com as irmãs em pesar, triste que só por ver uma pessoa exuberante e cheia de vida passar os dias vagando tal qual zumbi – sem cor, sem alegria, sem consciência, sem esperança, sem vida. Mas o coração de Mariana, inquieto e amoroso, sussurrava: não desista. Há outro caminho a seguir. Procure.

E assim, inspirada por seu coração, Mari procurou a irmã e, juntas, iniciaram uma jornada de busca de opções para uma nova avaliação do seu caso, bem como possíveis tratamentos para o quadro da mãe.  E a luz se fez: as irmãs encontravam  a equipe médica que poderia mudar o destino de Dona Greice.

Enquanto a capacidade cognitiva e a saúde mental da mãe eram avaliados a cada sessão, na sala de espera Mari mergulhava  em intensas reflexões sobre  o caminho que estavam seguindo. Sem nunca perder a confiança e muito menos a esperança, essa incrível capacidade de transcender provações inspirada pelo amor e pela vontade de viver,  que transbordava seu coração.

A semana que antecedeu o Natal e o solstício de Verão confirmou que o caminho de amor do coração estava se revelando o correto:  as avaliações haviam chegado ao final e a equipe médica brindou a família com o melhor presente: Dona Greice não tinha Alzheimer, mas sim, um quadro de pânico e depressão que necessitava de um novo método de tratamento.

Naquele momento, Mariana chorou de alegria eu  teve certeza de que, realmente, é a pureza da intenção que mora o coração que inspira atos, palavras e ações capazes de transformar o mundo. E que por isso, devemos confiar nela.

O calor intenso, abafado e úmido do verão de Porto Alegre marcou os dias mais difíceis, pesados e sofridos do tratamento de Dona Greice.  Testemunhar o processo de desintoxicação e adaptação do organismo frente aos novos medicamentos e metodologia de trabalho causou muita dor e comoção às irmãs. Mas jamais abalou a confiança de eu o caminho apontado pelo coração estava correto. E, por isso, elas encontrariam e teriam as ferramentas necessárias no tempo adequado.

À medida que as águas de março fechavam o verão no lado de cá do Equador e o equinócio de Outono se aproximava,  Dona Greice encerrava a fase mais crítica do tratamento.   O medo, no entanto, ainda era um de tormento constante que lhe aprisionava o espírito e tiranicamente a mantinha em cárcere privado.  Ver a mãe naquele estado entristecia Mariana e sua irmã. Mas apesar de tudo, elas seguiam trilhado o caminho com coragem e confiando em cada passo dado. E cotando com o afeto e apoio dos amigos.

Quando o inverno atingiu seu clímax ao sul do Equador e o solstício anunciava a gradual crescente retomada da luz sobre a escuridão, as irmãs viam a vida voltar, pouco a pouco, no olhar de Dona Greice.  E assim, quando o novo equinócio de Primavera chegou, marcando o final de um ciclo da natureza, também Dona Greice entrava em uma nova etapa de seu tratamento. Ainda longe de seu final, mas já distante do seu conturbado começo.

Como seria a nova etapa, nenhuma das irmãs sabia. Mas em seus corações só fortalecia a convicção de que é preciso confiar no impulso amoroso e sábio do coração e muita coragem para se lançar no desconhecido e enfrentar as provas que surgem no caminho. Porque é desse ato de fé que a vida prospera.