Comprometimento & propósito, Saturno

‘Se seus sonhos estiverem nas nuvens, não se preocupe,
pois eles estão no lugar certo; agora construa os alicerces’
Shakespeare

Para iniciar esta segunda etapa da jornada, vamos conhecer uma força que poucos compreendem, quase ninguém se  esforça para entendê-la e muitos temem. Falo de um titã, a primeira raça a habitar a Terra e, portanto, um das forças violentas que povoou o mundo em seus primórdios. Falo de Saturno, Chronos, o deus do tempo cronológico na Mitologia grega.

Reza a lenda que ele foi fruto da união da terra Gaia com o céu  Urano. Nada satisfeito com os filhos horríveis e devastadores – todos eles titãs, titanesas, cíclopes (monstros de um olho só) e gigantes  de muitos braços -,  Urano acabou trancando sua prole no tártaro, na escuridão do submundo.  Revoltado, Saturno decidiu por um fim à tirania do pai. Com a ajuda de sua mãe, depôs Urano, libertou os irmãos e se tornou soberano. No entanto, alertado que também seria destronado, passou a engolir os filhos, disposto a preservar o seu reinado. Mas de nada adiantou, pois Zeus, seu filho mais novo, acabou por destroná-lo, banindo Chronos (o tempo cronológico) da Terra.

Com um passado destes, não é por acaso que as pessoas apedrejam e culpam Saturno por todos os males do mundo. Acusam, julgam e lhe apontam o dedo como o grande culpado de quase tudo que é ruim. E o rotulam de maléfico, Senhor do Carma e das limitações, do medo e da solidão. OK, eu  entendo que a história aí contribui e muito para toda essa má fama.

Mas sugiro que, antes de sair por aí julgando, façamos uma leitura menos rápida e superficial e mais ampla dessa história. Porque nela vamos encontrar uma força das mais importantes para a vida interior e que nos leva a estruturar nossas vidas em cima de bases sólidas, sem temer as tempestades de Urano, os terremotos de Netuno e os vulcões de Plutão: viver cada momento de cada ciclo absolutamente imerso nele, sabendo que o passar do tempo cronológico traz mudanças inevitáveis e, com elas, uma sucessão de novas ordens vão, progressivamente, substituindo uma à outra.

‘Tudo o que se faz, dá forma ao que somos’
Martin Schulman

A consciência que Saturno simboliza é exatamente isso. Ela nos coloca em contato com a realidade atual e com as nossas tarefas e desafios, nos levando a assumir total responsabilidade por nossos próprios atos, por fazer o que é necessário e nos cabe, a fim de concretizar e dar forma à nossa verdade, em total comprometimento com ela, e somente com ela – a nossa natureza.

Assim, empenhados unicamente em honrar nossa natureza e seu propósito, em sermos fiéis e leais a quem somos, vamos estruturando e  alicerçando a vida em bases firmes e sólidas de significado. Com os pés na realidade e a cabeça na sabedoria e graça divina que nos habita, vamos executando o que os cabe em cada trecho de nossa jornada. Aqui e agora, presentes e absolutamente imersos na tarefa que cada momento demanda.

Em estado de flow, no fluxo, como definiu o professor de Psicologia e Educação da Universidade de Chicago, Dr. Mihaly Csikszentmihalyi.  Algo que ‘acontece quando a energia psíquica, ou atenção, é investida em metas realistas, e as habilidades se combinam com as oportunidades de ação. A tentativa de alcançar uma meta dá um foco na atenção porque a pessoa tem de se concentrar na tarefa em pauta e momentaneamente esquecer tudo que a cerca’, como explica o professor.

Como já diziam os mestres chineses, milhares de anos antes do Dr. Csikszentmihalyi, na quietude e usando toda a concentração atingimos nossos objetivos. Em absoluta concentração e imersão. Com disciplina, organização e foco. Sem peso algum. Sem procrastinar, adiar ou achar horrível. Sem perder tempo em comparações com o que poderíamos ter feito em algum ponto do passado.  E assim, entre um flow e outro, a vida vai se materializando, concretizando, acontecendo de fato.

Sim, sim, sim.

Por isso, quando nos comprometemos com tarefas e atividades que honram a nossa verdade e em torno delas estruturamos nossos dias, assumimos a responsabilidade e a autoridade que nos cabe sobre a vida que levamos.  Aliás, este compromisso com a verdade, que se torna mais e mais claro através da sintonia com a sabedoria e a graça divina, nos inspira a fazer o que é preciso com total e absoluta entrega.  E também a jogar no tártaro as crenças e condicionamentos, bem como conceitos e ideias dos outros, que não dialogam com a nossa verdade. Tudo aquilo já ultrapassado que tenta nos engolir, tirar vida , ao invés de gerar.  Eis a força que Saturno simboliza.

É por isso que da desconexão nasce o condicionamento, a ilusão e o medo e pavor das mudanças. Inclusive, as do passar do tempo (significado da palavra grega chronos), o que faz com que o envelhecer pese.

Sem comprometimento com a verdade interior, não entendemos o propósito que há nos ciclos, nas tarefas a serem executadas aqui e agora, na jornada em si. E assim, nos ressentimos com o tempo e o tornamos vilão de tudo. Porque sem atribuir a ele significado, chronos realmente se torna sem sentido, cruel, pesado e temido.

Reflete comigo.

Contra a própria natureza

Ando um bocado reflexiva sobre a ditadura da beleza nestes nossos tempos e sua força de condicionamento.  Ainda que as mulheres sintam mais o peso dos padrões do belo, isso já não parece ser uma prerrogativa exclusiva do universo cor-de-rosa. Também os homens buscam se adequar a um modelo de beleza.  Tanto ladies quanto gentlemen almejam ser apreciados, reconhecidos por sua exuberância. E almejam ser iguais. Muito iguais. Isto mesmo. Todos querem seguir um mesmo molde (pré)estabelecido.

É contraditório, no entanto, que muita gente busque se tornar igual para ser diferente.  Homens e mulheres bradam por originalidade e afirmam ser essa a ignição que os faz buscar a transformação da própria natureza. Porém, é a mesmice que eles realmente querem quando aterrissam nas academias, nos consultórios médicos, nos salões de beleza e nas estéticas.

Será que as pessoas não se dão conta de que estão se transformando em bonecos? Em réplicas de Barbies e Bobs turbinados e anabolizados? Que estão todos ficando absolutamente iguais, com shapes e formatos semelhantes? Todos buscando uma produção em série, quase em escala industrial. Corpos, cabelos, sorrisos, narizes, coxas, quadris, tonalidades de pele e – quem duvida – até pensamentos absolutamente iguais. Iguaizinhos, mesmo

Duvida?

Então comece a observar como tem sido cruel, especialmente para as mulheres, a relação com o tempo. Avançar nas décadas parece ter se tornado uma ofensa nessa sociedade que valida e cultua o eternamente jovem. Em nome disso, o que vemos por aí são clones com pele repuxada ao grau da quase aberração, ventríloquos humanos de olhos arregalados, bocas infladas e pensamentos curtos.

Na ânsia pela beleza, há quem não vacile e desrespeite a própria natureza, arriscando-se além dos limites e debilitando a saúde – como todos já ouvimos falar.  É o vale tudo em nome de um padrão, do ser belo custe o que custar.  Infelizmente, tanto homens quanto mulheres parecem ter gravado isso em suas mentes, como se fosse um chip rodando constantemente em seus cérebros.  E parece que foi deletado do sistema a noção de que cuidar de si não significa ir contra a própria natureza. Jamais.

Veja bem, sou vaidosa e super a favor de cuidados estéticos, tipo usar suplementação com colágeno, silício, radiofrequência para estimular o tônus das coxas e até uma injeçãozinha de Botox na testa de tempos em tempos. Adoro, sim.  Tanto quanto os sulcos do sorriso marcados em meu rosto. Porque são lembranças dos milhares de momentos felizes que já vivi.  São memórias de vida.  Minha identidade, portanto.  Aliás, não deve ser mero acaso a multiplicação de casos de Alzheimer e demência senil  em uma sociedade que desqualifica tanto a maturidade. Não é?

O fato é que, apesar da pele sem a vitalidade da juventude e das marcas que insistem em se instalar no corpo, a maturidade é deliciosa. Libertadora! Não cuido de mim em busca da aprovação alheia ou por excesso de crítica comigo mesma – o que fiz isso em outros tempos da vida.  Não ‘preciso’ disso ou daquilo para atribuir valor à mim como mulher e, menos ainda,  como ser humano que sou. Porque agora, é a sabedoria que comanda a consciência.

Faço simplesmente o que compreendo tratar bem o templo sagrado do meu ser.  Cuido do corpo com carinho, afeto e amor pela casa que acolhe meu espírito, minha alma, o divino em mim. Com esta consciência, invisto no que o nutre e alimenta de dentro para fora. Ou seja, a minha verdade. E faço escolhas saudáveis que ajudam a manter a vitalidade do organismo e energética como um todo.  Com a serenidade da sabedoria e a beleza da maturidade