Câncer, sinônimo para coragem?

Eu nunca havia percebido nossa contradição entre o que dizemos aos portadores de um câncer e o uso que fazemos da palavra câncer para citar tudo que é negativo. Quem chamou minha atenção para isso foi a empresária e educadora Maria da Graça Flach,  a  Chica, enquanto conversávamos sobre sua vivência e tratamento de um câncer. Pois o que ela disse dialoga comigo e faz todo o sentido.

Você já havia reparado na quantidade de vezes que usamos esta palavra para nos referir a situações ou comportamentos que condenamos? Que abominamos? Não? Pois veja o caso de um ex-candidato que, ao longo de sua campanha, dizia que a violência é o câncer da sociedade,  “que aniquila, liquida e mata”. Nada errado e até bastante comum a analogia usada por ele.   Para quem não vive a doença, ela passa batido.

Mas então, por alguns instantes, vista a pele de quem está diante de um diagnóstico de câncer, no início de um longo tratamento ou enfrentando os efeitos da doença que a mídia repete que ‘aniquila, liquida e mata’. Soa como um estímulo? Só se for para o medo e a incerteza. Encorajador?  Nada disso! Muito pelo contrário, soa quase uma sentença de morte.

– Marca, mexe, desestimula, melindra –  garante Chica, que está encabeçando uma campanha de conscientização quanto ao uso da palavra pela mídia.

De fato,  a forma com que tratamos a palavra e as analogias que a ela fazemos não contribuem ‘nadica de nada’ com quem está vivendo esta doença. E, pior ainda, desmotivamos.

– É preciso dar um novo contexto à palavra câncer – reforça Chica.

Concordo com ela. E, por isso, desde a nossa conversa passei a ter especial atenção como uso a palavra câncer. E também ponderei sobre a criação de uma nova analogia, mais empática e positiva aos ouvidos de quem vive a doença. E tenho uma sugestão a fazer. Que tal usarmos a palavra coragem? No sentido de sua raiz couer (a saber, coração),  que simboliza  ‘qualidade espiritual de bravura e tenacidade’.

Entre altos e baixos,  momentos de choro e outros de fortaleza, a mim parece que quem vive o câncer é movido por esta ‘qualidade espiritual de bravura e tenacidade’ como forma de contrapor o medo e a incerteza.  Mas se não der pra mudar o significado da palavra, então que se mude o nome da doença; que se escolha uma nomenclatura que não liquide, aniquile e mate a perspectiva de viver de seus portadores.

Texto escrito no Outubro Rosa de 2014.
Também fazem parte desta série os posts  A Importância dos Sinais  e Universo de Sentimentos.