O problema é a segurança nacional?

Eu já disse aqui e repito:  sou uma believer.  Acredito na palavra proferida. Na boa intenção das pessoas. No amor.  Mas não sou a única.  Meu amigo Carl também é assim.

Tempos atrás, ele teve um date incrível. Foi um encontro mágico, maravilhoso. O cara (sim, meu amigo é gay) era perfeito. Gostava de tudo que ele gostava. Viagens, artes, vinhos e jantares refinados, bons livros e boa companhia.  Ao final daquela noite, não havia dúvidas:  ambos (veja bem: eu disse ambos) haviam encontrado no outro tudo que confessaram estar buscando já há algum tempo – algo além do sexo casual.

Nos dias seguintes ao encontro, os dois trocaram mensagens e juras através de seus celulares, já que o alfa bofe gay viajara em missão praticamente secreta a serviço da segurança nacional.  Nas mensagens, era claro o status do engajamento:  relacionamento sério, darling. Sim, meu amigo estava namorando.

Passaram-se dez dias e, então, as respostas começaram a se espaçar. Depois, se tornaram lacônicas. E, finalmente, cessaram. Sobrou apenas um incômodo e inexplicável silêncio.  E tem coisa pior que um cara desaparecer sem dizer o porquê? Isso abre uma super porta para comportamentos do tipo velar defunto sem ver o cadáver – a imaginação se agarra em qualquer explicação estapafúrdia na esperança de que o morto ressuscite na próxima Páscoa.

Para minha (nossa) alegria, Carl logo sacou o desinteresse do cara – não sem ficar decepcionado, claro. Afinal, no alto dos 40, o que a gente não espera é encontrar pessoas agindo como adolescentes, sem repertório algum de comportamento no relacionar.  Gente grande só no papo. Canalha fraco que não tem coragem, colhão ou decência para entregar a verdade de um “não tô mais afim”.

Mas gente sem caráter existe em qualquer idade, certo?

E assim, testemunhei que cafajestes,  fracos e sedutores não são exclusividade do universo hetero. Há muitos no mundo gay, também.  E, mais uma vez,  reforcei minha crença de que, por pior que possa ser, a verdade ainda é o melhor caminho. Sempre. Porque ela mantém a integridade das relações e o respeito que temos por nós mesmos e pelos outros.  É por isso que não abro mão de acreditar. Prefiro na chuva de uma possível decepção me molhar e seguir sendo uma believer, do que na mediocridade estéril da mentira de canalhas, covardes, fracos viver.

Texto de Maio de 2014